quinta-feira, 18 de junho de 2009

Noite

“É noite. É tarde. E numa das mais complicadas semanas da minha vida, em vez de estar a estudar, estou-me a lamuriar. Lamuriar por não ser como devia ser. Por não me sentir como devia sentir. Por duvidar daquilo de que não deveria duvidar. Sou ambiciosa e isso estraga-me, estraga o que faço, leva-me a estragar o que tenho de bom. Não consigo dizer nada, já nem um “desculpa” me sai. Pensei que fosse mudar, mas só me estraguei mais. Pensei que ia melhorar, mas só me sinto pior a cada dia que passa. Não sou o que devia nem o que um dia esperei ser. Não estou nem perto da pessoa que idealizei ser e a cada dia que passa, pioro. Já não sou ninguém, já não me sinto ninguém. Já estou demasiado dependente, o cordão umbilical voltou a crescer. E não o quero cortar, mas ele alimenta-me de ódio, de obsessão, de medo e eu sei que mais tarde ou mais cedo, antes de eu me tornar um monstro, ele vai ter que sair. A minha desevolução não vai parar, vou continuar a piorar, mas ao menos assim não contamino quem está do outro lado do cordão. Temi e aconteceu: aquilo que eu sinto por mim própria contagiou em demasia a minha relação com os outros. Já não é a minha relação com os outros, é a minha relação comigo mesma, o outro já é apenas uma extensão de mim, o segundo elemento da minha dupla personalidade. Em cada palavra, em cada sílaba tenho de sentir o terceiro significado para que me sinta queimar por dentro para saciar a minha sede de auto-destruição. Não aguento mais partilhar o pesadelo que faço da minha vida com os outros. Deixem-me, vão à vossa vida. Eu ia acabar num colete de forças, de qualquer forma.”

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